Raul Pompeia - O Ateneu - 11 / 12









O Ateneu, de Raul Pompéia


XI


O Dr. Cláudio encetou uma série de preleções aos sábados, à imitação das que fazia às quintas Aristarco sobre lugares-comuns de moralidade. Filosofia, ciência, literatura, economia política, pedagogia, biografia, até mesmo política e higiene, tudo era assunto; interessantíssimas, sem pesadas minuciosidades. Depois da astronomia do diretor, nenhuma curiosidade me valera tão bons minutos de atenção.

Narrava-nos a vida. As festas plutonianas do movimento, da ignição; a gênese das rochas, fecundidade infernal do incêndio primitivo, do granito, do pórfiro, primogênitos do fogo; o grande sono milenário dos sedimentos, perturbado de convulsões titânicas.

Falava do antracito e da hulha, o luto feito pedra, lembrança trágica de muitas eras orgulhosas do planeta, monumento da pré-história das árvores, negro, que a indústria dos homens devasta. Descrevia a escadaria dos terrenos, onde existe a pegada impressa do gênio das metamorfoses, subindo, desde a vegetação florestal dos fetos até ao homem quaternário. Falava-nos de Cuvier e da procissão dos monstros ressurgidos, caminho dos museus, o megatério potente, tardo, balançando as passadas, sujo, descamando saibro e as concreções secas do lobo diluviano, solene, cônscio da carga de séculos que transporta.

Vinha depois a aluvião moderna das zonas formadas, o solo fecundo, lavradio. E o mestre passava a descrever a vida na umidade, na semente, a evolução da floresta, o gozo universal da clorofila na luz. Falava-nos do cerne, o generoso madeiro, o tronco, que sangra em Dante, que sustenta nos mares o comércio, Netuno inglês do tridente de ouro. Falava-nos da poesia ignorada da vegetação marinha nos abismos, e da giesta, isolada nas altas neves, flor do ermo, a degradada eterna do inacessível.

Depois, a história dos brutos, os grandes bramidos de macho nas regiões virgens, os dramas do egoísmo na selva, do egoísmo rude da força que pode, cego, formidável, sagrado como a fatalidade. E corria inteira a série das classificações, mostrando a vida no infinitésimo, a microbia invisível, onipotência do número, sociedade inconsciente da mônada, solidária para a morte e para as reconstruções imperecíveis da Terra.

O homem finalmente — ventre, coração e cérebro, política, poemas, critério; a alma, universo de universo, imagem de Deus, refletor imenso, antropocêntrico, do dia, das cores, que o Sol inflama, que o Sol não sente.

Falava uma vez sobre educação.

Discutiu a questão do internato. Divergia do parecer vulgar, que o condena.

É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, ocasião de contato com indivíduos de toda origem? O mestre é a tirania, a injustiça, o terror? O merecimento não tem cotação, cobrejam as linhas sinuosas da indignidade, aprova-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, a maledicência, a calúnia, oprimem os prediletos do favoritismo, oprimem os maiores, os mais fortes, abundam as seduções perversas, triunfam as audácias dos nulos? A reclusão exacerba as tendências ingênitas?

Tanto melhor: é a escola da sociedade.

Ilustrar o espírito é pouco; temperar o caráter é tudo. É preciso que chegue um dia a desilusão do carinho doméstico. Toda a vantagem em que se realize o mais cedo.

A educação não faz almas: exercita-as. E o exercício moral não vem das belas palavras de virtude, mas do atrito com as circunstâncias.

A energia para afrontá-las é a herança de sangue dos capazes da moralidade, felizes na loteria do destino. Os deserdados abatem-se.

Ensaiados no microcosmo do internato, não há mais surpresas no grande mundo li fora, onde se vão sofrer todas as convivências, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialética geral, e nos envolvem as evoluções de tudo que rasteja e tudo que morde, porque a perfídia terra-terra é um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora; onde

o aviltamento é quase sempre a condição do êxito, como se houvesse ascensões para baixo; onde o poder é uma redoma de chumbo sobre as aspirações altivas; onde a cidade é franca para as dissoluções babilônicas do instinto; onde o que é nulo, flutua e aparece, como no mar as pérolas imersas são ignoradas, e sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma.

O internato é útil; a existência agita-se como a peneira do garimpeiro: o que vale mais e

o que vale menos, separam-se.

Cada mocidade representa uma direção. Hão de vir os disfarces, as hipocrisias, as sugestões da habilidade, do esclarecimento intelectual; no fundo a direção do caráter é invariável. A constância da bússola é uma; temos todos um norte necessário: cada um leva às costas o sobrescrito da sua fatalidade. O colégio não ilude: os caracteres exibem-se em mostrador de franqueza absoluta. O que tem de ser, é já. E tanto mais exato, que o encontro e a confusão das classes e das fortunas equipara tudo, suprimindo os enganos de aparato, que tanto complicam os aspectos da vida exterior, que no internato apagam-se no socialismo do regulamento.

E não se diga que é um viveiro de maus germens, seminário nefasto de maus princípios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrupção que ali viceja, vai de fora. Os caracteres que ali triunfam, trazem ao entrar o passaporte do sucesso, como os que se perdem, a marca da condenação.

O externato é um meio-termo falso em matéria de educação moral; nem a vida exterior impressiona, porque a família preserva, nem o colégio vive socialmente para instruir a observação, porque falta a convivência de mundo à parte, que só a reclusão do grande internato ocasiona. O internato com a soma dos defeitos possíveis é o ensino prático da virtude, a aprendizagem do ferreiro à forja, habilitação do lutador na luta. Os débeis sacrificam-se; não prevalecem. Os ginásios para os privilegiados da saúde. O reumatismo deve ser um péssimo acrobata. Erro grave combater o internato.

Cumpre que se institua, que se desenvolva, que floresça e se multiplique a escola positiva do conflito social com os maus educadores e as companhias perigosas, na comunhão corruptora, no tédio de claustro, de inação, de cárcere; cumpre que os generosos ardores da alma primitiva e ingênua se disciplinem na desilusão crua e prematura, que nunca é cedo para sentir que o futuro importa em mais que flanar facilmente, mãos às costas, fronte às nuvens, através das praças desimpedidas da república de Platão.

Durante a conferência pensei no Franco. Cada uma das opiniões do professor, eu aplicava onerosamente ao pobre eleito da desdita, pagando por trimestre o seu abandono naquela casa, alaguei do desprezo. Lembrava-me do desembargador em Mato Grosso e da carta que eu lera e da irmã raptada, da vingança extravagante dos cacos, da timidez baixa das maneiras, da concentração muda de ódios, dos movimentos incompletos de revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. Tive pena.

Depois da conferência fui visitá-lo.

Estava de cama no salão verde, à direita, perto das janelas. Andava adoentado desde a última vez que fora à prisão.

Embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo saguão cimentado dos lavatórios; sentia-se uma impressão de escuro absoluto; para os lados, a distancia, brilhavam vivamente, como olhos brancos, alguns respiradouros gradeados daquela espécie de imensa adega. O chão era de terra batida, mal enxuta. Impressionava logo um cheiro úmido de cogumelos pisados. Com a meia claridade dos respiradouros, habituando-se a vista, distinguia-se no meio uma espécie de gaiola ou capoeira de travessões fortes de pinho. Dentro da gaiola um banco e uma tábua pregada, por mesa. Sobre a mesa um tinteiro de barro. Era a cafua.

Engaiolava-se o condenado na amável companhia dos remorsos e da execração; ainda em cima, uma tarefa de páginas para a qual o mais difícil era arranjar luz bastante. De espaço a espaço, galopava um rato no invisível; às vezes vinham subir às pernas do condenado os animaizinhos repugnantes dos lugares lôbregos. À soltura surgia o preso, pálido como um redivivo, espantado do ar claro como de uma coisa incrível. Alguns achavam meio de voltar verdadeiramente abatidos.

Franco saiu doente.

Alguns colegas mostravam interesse por ele. Franco respondia com aspereza; não tinha nada! Eram todos culpados; havia de adoecer, havia de adoecer gravemente para que tivessem remorsos, eles mesmos, o Silvino, Aristarco, todos os seus algozes! Raciocinava como as vitimas da antiga escola, que se deixavam morrer fiadas no espectro. E ocultou que sofria.

Devorou-o por semanas uma febre ligeira, mas impertinente. Expunha-se à soalheira, ao sereno, de propósito.

Um dia não pôde levantar-se.

Dorzinha de cabeça, explicava. Vinham-lhe náuseas, ele corria à janela. Embaixo havia um pé de magnólias, copado como um bosque; ele no intervalo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio visguento do vômito contra as amplas flores alvas.

Encontrei-o mal.

Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de cobertores que os vizinhos haviam cedido, afetava o descuido infantil, na fisionomia, a indiferença horripilante, suprema dos que não vão longe. Fiquei surpreendido e aterrado.

O médico, a chamado de Aristarco, viera duas vezes. Condenou a idéia de remover-se o doente; recomendou cuidado com as vidraças; diagnosticou uma febre qualquer, redigindo o récipe, partindo ambas as vezes com a discrição hermética que faz a importância da classe.

Perguntei ao Franco como passava. Ele agitou devagar as pálpebras e sorriu-se. Nunca lhe conheci tão belo sorriso, sorriso de criança à morte. Oito horas da noite. O gás atenuado produzia eflúvios contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos outros dormitórios, em cujas vidraças espelhantes devia passar sucessivamente a minha sombra. Procurei o diretor e comuniquei-lhe os meus terrores.

No dia seguinte, um domingo alegre, Franco estava morto.

O correspondente compareceu em pessoa para as indispensáveis providências. Transferiu-se o corpo para a capela, onde se erigia a essa. Aristarco chorou; mas o saimento foi modesto; não convinha ao colégio o aparato de um grande enterro, pregão talvez de insalubridade.

Eu nada vi; quando subi ao salão verde novamente, estava tudo acabado. Alguns rapazes revolviam curiosos na gaveta do Franco o espólio da morte, uma escova de dentes esfiapada, tingida do carmim de um pó chinês, uma velha correia sem fivela, uma fotografia gorda de mulher despindo os seios, cartas à-toa e um maço considerável de boas notas, arranjadas ninguém sabe como, com assinaturas falsas de professores, e o nome de Franco, fraude de sucesso com que o pobre pretendia maravilhar o magistrado de Cuiabá.

Desmanchando-se a cama, caiu dos lençóis um cartão; uma gravara, Santa Rosália! a minha padroeira desaparecida. Morrera talvez beijando-a, o pária.

Pouco tempo depois, o Ateneu em festa.

Preparava-se a solenidade da distribuição bienal dos prêmios. As benemerências andavam famintas de coroas. Suspenderam-se as aulas. Era preciso começar o preparativo com grande anterioridade, porque se projetava coisa nunca vista. Alguns discípulos tinham prevenido ao diretor, guardavam-lhe uma surpresa: a oferta de um busto de bronze! Aristarco predispunha-se para a surpresa com todas as veras da alma. Um basto! era a remuneração que chegava dos impagáveis esforços, a sonhada estátua. Vinha-lhe aos pedaços. Começavam pela cabeça; mais tarde, oferecer-lhe-iam o abdome, bela pança metálica e magnífico umbigo de bonzo gordo, saliente como um marro; depois, o prolongamento do corpo, aos roletes, gradualmente... Ah! quando lhe oferecessem as botas!... Depois, não seria preciso mais: o pedestal, ele mesmo oferecer-se-ia para adiantar. E parafusaria, acumuladas, as peças do seu orgulho, a pilha dos seus anelos, a estátua! surgida aos poucos da sinceridade vagarosa das oblações, como dificilmente a glória, do escrutínio demorado dos tempos.

Devia ser uma solenidade sem memória nos fastos da pedagogia triunfante, um obelisco de despesas, de luxo, de esplendor, a cuja ponta, como a erupção de uma cratera, saltasse a surpresa, galardão das altas qualidades e pirraça suprema à concorrência dos rivais.

Não havia sala no Ateneu que comportasse tão vasta festividade; nem o próprio lagar dos recreios abrigados. Resolveu-se cobrir de lona o pátio central, sobre grandes mastros plantados convenientemente. Uma barraca incalculável, a maior barraca que a imaginação humana tem concebido, que abrangesse na sombra quatro mil pessoas, com o pano emprestado aos toldos, ao velame de uma esquadra. Embaixo, as arquibancadas; reservando-se, no meio, espaçosa arena para a exibição dos laureados. Por intermédio do ajudante-general da Armada, que tinha dois filhos no estabelecimento, podia-se comodamente obter a lona.

Durante alguns dias chegaram ao Ateneu cargas imensas de pano. Espichavam-se os rolos no pátio, ao longo das paredes. Apareceram em seguida as madeiras e os carpinteiros, um povo de carpinteiros.

Em meio dos operários iam e vinham os estudantes, ajudando, atrapalhando, às carreiras, aos saltos, aos gritos, pressentindo a felicidade do dia solene. Aristarco aprovava o tumulto; queria vê-los alegres. A morte do Franco produzira uma penumbra de pânico; alguns rapazes tinham ido para casa, receosos da febre.

O alvoroço dos preparativos reanimava o Ateneu. Em poucos dias atravancou-se o pátio de postes e travessões, tábuas e pés de serra, como um desmedido estaleiro. Os martelos batiam por todos os cantos com a crepitação continua dos tiroteios. Desaparecia a terra sob a poeira dos paus cortados. Aristarco fiscalizava o serviço como mestre-de-obras, rondando calado, sério, sorvendo satisfeito as emanações da serragem fresca, cheiro de oficina, cheiro do trabalho, ouvindo atritar os serrotes com um rumor de fábrica, que lembrava os haustos de ofego do vapor ao vaivém poderoso dos êmbolos. Havia um prazer especial naquilo; crescer do chão em três dias por honra sua a floresta das vigas e barrotes, ao esforço de tantos homens ativos e azafamados; cantarem as tábuas sob os malhos, desdobrando-se escadas e bancadas como um desafio às exaltações, e prejulgar do efeito total, quando tudo fosse belbutina e paninho, e o concurso da população invadisse, e assomasse, de um terremoto de aclamações,

o busto, altaneiro e luzente.

Certo não foi tão nobre o orgulho daqueles monarcas das pirâmides, idiotas macabros e colossais, arquitetos inúteis de sepulcros.

Partiram os carpinteiros, apresentaram-se os armadores. Estenderam-se sobre o vigamento os toldos, as velas, como um céu de lona. As janelas do pátio abriam-se para o anfiteatro como tribunas.

Os armadores comprometeram em sanefas todo o pundonor do talento. Tudo que pode produzir de aparatoso o bem combinado das cores vivas e os apanhados de cassa flutuante, e os lambrequins pintados do coreto, e as colunatas de papelão; tudo que pode a concordância assombrosa da cenografia e da ripa, armou-se no pátio profusamente.

Na arena central expandia-se um tapete pardo, de flores claras. Em parte da arquibancada, convenientemente disposta, alinhavam-se cadeiras. Os estudantes e os assistentes somenos sentar-se-iam na tábua dura. As abertas de construção que não podiam ficar assim em osso, foram empanadas de veludo com frisos de galão. Vermelho e ouro. Acima dos assentos havia uma linha de balaústres espiralados de fitas. Em cada balaústre um escudo com o nome de um pedagogo célebre. Por delicadeza incluíram o nome de Aristarco várias vezes. Aristarco não reparou.

Um dos lados do tapete ondeava-se em quatro degraus para um longo estrado, fronteiro à entrada do anfiteatro, apoiado à parede da sala geral de estudo. Erguia-se ali um trono, sob um dossel, para a Princesa Regente. De vez em quando, Aristarco, cansado de tanto mover-se, subia ao trono, sentava-se. Fazia-lhe bem o dossel por cima. E dava regras aos armadores, de li, como um soberano precavido ditando o esplendor da coroação.

Os iniciadores da subscrição do busto haviam concluído a tarefa. Eram dois: o Clímaco, aluno gratuito, e o professor de desenho. Clímaco, moço de espírito prático, não levou muito a ruminar uma feliz idéia. E se oferecêssemos um basto ao nosso diretor? Lembrou-se a principio de congregar os gratuitos; mas repetiu imediatamente a lembrança por inexeqüível. A gratidão podia-se subscrever por todos; saía mais barato. Entrou em campo. Os primeiros assaltados pelo convite ficaram frios. Diabo! não estavam dispostos assim, a ser gratos de uma hora para outra. Consultasse os colegas, que, se a idéia pegasse, não teriam dúvida. Alguns mais acanhados assinaram logo; alguns, ainda, dos pequenos assinaram sem saber claramente o que significava a coisa. Em poucos minutos a existência da subscrição estava no domínio público. Começou a pressão irresistível de fato. Que miséria! hesitar por dez mil-réis! Quem teria coragem de furtar-se ao testemunho público de agradecimento que a oferta do busto significava? Era uma desfeita ao diretor! Os primeiros signatários encarniçavam-se com despeito em coagir os outros, como se não quisessem ser os únicos sangrados.

Já não era preciso esforço do iniciador. A idéia ganhava terreno por si; em dois dias inteirava-se a subscrição. Muitos pegavam à vista; os que não tinham dinheiro iam tirar ao escritório, e o guarda-livros em segredo debitava o valor, despesas diversas, na conta do trimestre.

Diante da facilidade de obter o dinheiro, Clímaco resolveu sensatamente dispensar do rateio os gratuitos; aderiam com a intenção sincera. Razoável. Quando principiaram os preparativos da solenidade, já o busto, obra de zeloso artista, estava fundido.

No dia 13 de novembro, às nove horas, começou a afluência. O anfiteatro do pátio estava fechado ainda. Os convidados que apareciam, depois de cumprimentar o diretor, espalhavam-se a passear em grupos pelo jardim, ou percorriam as salas do estabelecimento, examinando os aparelhos escolares, as cartas de parede, as máximas sábias, meditando a seriedade do ensino naquela casa. A afluência aumentou. Os convites tinham sido distribuídos largamente pela cidade. Às onze horas era difícil circular no Ateneu. A festa principiava às duas. Ao meio-dia franqueou-se o anfiteatro.

Foi como se se houvera aberto o seio de Abraão. A última demão dos armadores fora digna do primeiro esforço. Cruzavam-se, fazendo volta às arquibancadas, no alto, em bambinela, em faixas entrelaçadas, balançantes, o cor-de-rosa dos sorrisos infantis com uma tira alaranjada do arrebol; imediatamente depois, uma zona de vivo escarlate, ferindo sangue às veias do mais subido júbilo; aprumavam-se as colunatas dos escudos; debaixo dos escudos, oito soberbos degraus da arquibancada, veludo e galões. Perto do trono, elevava-se um palanque para o corpo docente; ao lado oposto, simetricamente, outro palanque para a banda de música e para os cantores. Não se via mais o teto de lona: alças enormes de ramaria e flores enredavam-se ao alto em graciosa desordem, flácidas, pendentes, como um dilúvio de primavera a desprender-se. Entre o verdor carregado dos festões do teto e o tapete pardo, vagava a serenidade obscura das catedrais e das florestas, neblina penetrante de recolhimento. As pessoas que entravam guardavam silêncio. O pouco que se ouvia de vozes era baixinho, cochichos de missa, surdina aveludada, amortecida, como se estivesse falando o tapete. A cornija sanefas vibrava em desconcerto com a melancolia religiosa do recinto. Algumas nesgas da lona sobre a folhagem contrastavam ainda mais, abrindo-se à irrupção do dia.

Os alunos entravam fardados, subiam, abancavam-se à esquerda, fazendo tremer o edifício todo de carpintaria. Aristarco veio ficar à porta. Imenso reposteiro, rubro, de grandes borlas, desviava-se acima dele como para mostrá-lo. Calças pretas, casaca, peito blindado de condecorações, uma fita de dignitário ao pescoço, que o enforcava de nobreza. Mirando! A suprema correção, a envergadura imponente do talhe, a majestade dominadora da presença, fundia-se tudo numa mesma umbigada de empáfia.. Os rapazes olhavam com o prazer do soldado que se orgulha do comandante. O Mestre invejável, desempenado, brilhante para a festa, como se houvesse engolido um armador.

Ao redor de Aristarco, ajudantes-de-ordens, apressavam-se os membros de uma comissão de recepção, composta de professores de bela presença, e alunos em condições semelhantes. Realizavam com o diretor um cerimonial interessante de hospitalidade. Na entrada do anfiteatro comprimia-se a multidão, dos convidados. Aristarco e os ajudantes espiavam, farejavam, descobriam os pais, as famílias dos de mais elevada posição social, que pescavam para o ingresso preterindo os mais próximos. Os escolhidos eram levados para as arquibancadas de cadeiras. Se encontravam nos lugares especiais quem para li não houvessem conduzido, convidavam delicadamente a levantar-se; que a família do Visconde de Três Estrelas não podia ir para as tábuas nuas. Este rigor de etiqueta fazia suar a comissão, embaraçada na massa da concorrência. Aristarco aproveitava também para desforrar-se dos pagadores morosos da escrituração. Afinal deu na vista a pescaria dos seletos. Houve murmúrios, estremecimento de surda revolta; os convites eram todos iguais! e a pretexto de haver crescido a multidão, foram-se muitos esgueirando sem mais ver diretor nem comissionados de cortesia.

O anfiteatro encheu-se tumultuariamente.

A Princesa Sereníssima, com o augusto esposo, chegou pontual às duas horas, acedendo ao convite que recebera primeiro que ninguém.

As duas e três minutos, subia à tribuna Aristarco. Não preciso dizer que a caranguejola sofrera mais uma das grandes comoções da malfadada existência. Ali estava, paciente e quadrada, no exercício efetivo de porta-retórica. Ficava à direita do sólio da princesa e diante do Orfeão.

Aristarco inclinou-se ligeiramente para a Graciosa Senhora. Passeou um olhar sobre o anfiteatro. Não pôde dizer palavra. Pela primeira vez na vida sentiu-se mal diante de um auditório. A massa de ouvintes apertava-se curiosa na linha das bancadas, em curva de ferradura. A cor preta das casacas e paletós generalizava-se no espaço como uma escuridão desnorteadora; amedrontava-o o semicírculo negro, enorme. A impressão simultânea do público impedia-lhe reconhecer uma fisionomia amiga que o animasse. Mas urgia improvisar alguma coisa antes da eloquência rabiscada que trazia em tiras de papel... Quando o olhar foi ter a um objeto que o chamou à consciência de si mesmo. Diante da tribuna erigia-se uma peanha de madeira lustrosa; sobre a peanha uma forma indeterminada, misteriosamente envolta numa capa de lã verde. A surpresa! Era ele, que ali estava encapado na expectativa da oportunidade; ele bronze impertérrito, sua efígie, seu estimulo, seu exemplo: mais ele ate do que ele próprio, a tremer; porque bronze era a verdade do seu caráter, que um momento absurdo de fraqueza desfigurava e subtraía. Lembrou-se de que o vasto barracão, as alças de flores, o vigamento, a belbutina, a arquitetura dos palanques, os galões alfinetados, todas as sanefas de paninho, o olhar dos discípulos, a presença da população, o busto na capa verde, tudo era o seu triunfo por seu triunfo, e o embaraço desvaneceu-se. A inspiração ferveu-lhe de engulho à goela, vibrou-lhe elétrica na língua, e ele falou. Falou como nunca, esqueceu o calhamaço sobressalente que trouxera, improvisou como Demóstenes, inundou a arena, os degraus do trono, as ordens todas da arquibancada até à oitava, com o mais espantoso chorrilho de facúndia que se tem feito correr na terra.

O assunto conjetura-se. Agradecimentos, o elogio de seus penares de apóstolo. Abria a casaca e mostrava. Debaixo das comendas tinha as cicatrizes. As setas que lhe varavam a alma não se podiam ver bem por causa do colete. Avaliava-se pela descrição: devia ser horrível. Depois dos sofrimentos, os serviços.

O educador é como a música do futuro, que se conhece em um dia para se compreender no outro: a posteridade é que havia de julgar. Quanto ao seu passado, nem falemos! não olhava para trás por modéstia, para não virar monumento, como a mulher de Ló. Com o Ateneu estava satisfeito: uma sementeira razoável; não se fazia rogar para florescer. Corações de terra roxa, onde as lições do bem pegavam vivo. Era cair a semente e a virtude instantânea espipocava. Uma maravilha, aquela horta fecunda! Antes de maldizerem do hortelão, caluniadores e invejosos julgassem-lhe os repolhos, pesassem-lhe os nabos, as tronchudas couves, crespas, modestas, serviçais, as cândidas alfaces, as sensíveis cebolas de lágrima tão fácil quanto sincera, as instruídas batatas, as delicadas abóboras, que todos vão plantar e ninguém planta; os alhos, tipos eternos, às vezes porros, da vivacidade bem aproveitada; sem contar os arrepiados maxixes, nem as congestas berinjelas, nem os mastruços inomináveis, nem os agriões amargos, nem os espinafres insignificantes, nem o caruru, a bertalha, a trapoeraba dos banhos, que tem uma flor galante, mas que afinal é mato. Horta paradisíaca que ufanava-se de cultivar! A distribuição dos prêmios mostraria.

Podia concluir voltando à vaca-fria do louvor em boca própria; preferiu uma simples bomba qualquer de retórica, porque o mestrículo Venâncio ia também falar, e, na qualidade de pajem por dedicação, disputava-lhe sempre uma ponta para carregar do manto de glórias.

Seguiram-se algumas peças da banda do Ateneu e os hinos escolares.

Na parte concertante diziam que Aristarco mandara encartar um solo de zabumba para exibir o genro. Caçoadas.

A premiação foi, como devia ser, exuberante. Aristarco leu um relatório do movimento literário nos dois últimos anos. Lembrou o nome dos alunos de medalhas de ouro e prata, desde a fundação da casa, e convidou o secretário a evocar, por ordem de merecimento, os novos premiados. Extensa lista. A cada nome descia um aluno, branco de emoção, atrapalhando os passos; e transpunha a arena.

À esquerda do trono estava uma longa mesa, a que sentavam-se o Exmo. ministro do império e vários figurões da Instrução Pública.

Diante deles, a cavaleiro, encobrindo-os, erguia-se uma pirâmide verde de coroas de carvalho, papel e arame, e outra de coroas de ouro, idem, idem. Ouro para os de medalha; carvalho para o resto, em quantidade.

No estrado, a pouca distancia, ramas de livros luxuosamente encadernados. O premiado recebia três, dois, um daqueles volumes, a medalha, a menção honrosa, um sermãozinho amável do ministro, e saia com tudo, zonzo.

Em caminho, pelas costas, à traição, um inspetor enfiava-lhe um dos diademas de papel; até os olhos, quando era grande demais; e pior ainda quando era pequeno, porque o mísero laureado tinha de o agüentar em equilíbrio até à bancada.

O público batia palmas, talvez ao prêmio, talvez à sorte.

Ribas, o Mata Corcundinha, Nearco, o Saulo das distinções e mais outro, alcançaram medalha de ouro. Rômulo, Malheiro, Clímaco Sanches, Maurílio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. Eu, o Egbert, o Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e numerosíssimos outros, a singela menção honrosa. Aos não contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na justiça distribuída.

Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa sociedade, havia pessoas verdadeiramente notáveis: titulares de sólida grandeza, argentários de mais sólidos títulos, vultos políticos de bela estampa e tradições sonoras, uns exibindo à fronte as neves pensativas do hibernal senado, outros a energia moça da câmara temporária, médicos celebrizados por façanhas cirúrgicas, ou simplesmente pela vivissecção recíproca de mazelas em pleno logradouro público dos “a pedidos”.

Havia jornalistas, literatos, pintores, compositores; entre as senhoras, acumuladas principalmente nas bancadas especiais, distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a eflorescência da formosura, que a claridade branda do lugar vaporizava idealmente; havia ostentações de pedraria e vestuários que impressionavam; havia juventudes de lábios e de olhar enervantes ou arrebatadores, morenas, forçando magicamente o torpor da sesta sensual sob a carícia opressora de um pequenino pé vitorioso, louras convidando a um enlace de transporte a nuvem, mais alto! ao retiro etéreo onde vivem amor as estrelas duplas... Nada disso era o grande atrativo, nada conseguia altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso grande cuidado era o poeta, “o poeta!” murmurava o colégio, uns à procura, outros indicando. Era aquele de pé, mão ao quadril, vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas bandas, sobre as pessoas mais próximas, uma profusão assombrosa de suíças.

Dentre as suíças, como um gorjeio do bosque, saia um belo nariz alexandrino de dois hemistíquios, artisticamente longo, disfarçando o cavalete da cesura, tal qual os da últimamoda no Parnaso. À raiz do poético apêndice brilhavam dois olhos vivíssimos, redondos, de coruja, como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das órbitas cavas, que bem se percebia ali como deve brilhar o fundo na fisionomia da estrofe. O grande Dr. Ícaro de Nascimento! Vinha ao Ateneu exclusivamente para declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o sucesso obrigado das festas escolares do Rio: O Mestre. Logo depois dos prêmios, teve a palavra.

Durante meia hora houve uma coisa estranha: uma convulsão angustiosa de barbas no espaço. Crescente. Desapareceu o poeta, desapareceu o palanque, encheu-se o anfiteatro, foi-se o trono com a Alteza Regente, a longa mesa com Aristarco e o Exmo. do império, enovelaram-se as arquibancadas, desapareceu tudo numa expansão incalculável de suíças, jubileu de queixos. Ninguém mais se via, nada mais, no caos tormentoso de pêlos, onde uma voz passava atroadora, carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como patadas, esmagando, rompendo avante.

Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas. Recolheram-se como uma inundação que se retira. Estava acabada a poesia. Ninguém percebeu palavra do berreiro, porém a impressão foi formidável.

Depois de uma parte de concerto, que foi como descanso reparador, seguiu-se a oferta do basto. Teve a palavra o Professor Venâncio.

Aristarco, na grande mesa, sofreu o segundo abalo de terror daquela solenidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso às vezes tanta bravura para arrostar o encômio face a face, como as agressões. A própria vaidade acovarda-se. Venâncio ia falar: coragem! A oscilação do turíbulo pode fazer enjôo. Ele receava uma coisa que talvez seja a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio, imensamente. Mas o Venâncio. era demais. E ali, diante daquele mundo! Não importa! Viva o heroísmo.

Era conveniente postar-se em atitude severa bastante e olímpica, para corresponder à glorificação de Venâncio. Pronto.

O orador acumulou paciente todos os epítetos de engrandecimento, desde o raro metal da sinceridade até o cobre dútil, cantante das adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas ênfases, e sobre a massa bateu como um ciclope, longamente, até acentuar a imagem monumental do diretor.

Aristarco depois do primeiro receio esquecia-se na delícia de uma metamorfose. Venâncio era o seu escultor.

A estátua não era mais uma aspiração: batiam-na ali. Ele sentia metalizar-se a carne à medida que o Venâncio. falava. Compreendia inversamente o prazer de transmutação da matéria bruta que a alma artística penetra e anima: congelava-lhe os membros uma frialdade de ferro; à epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente maciço por dentro, como se houvera bebido gesso.

Parava-lhe o sangue nas artérias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, mineralizava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorgânico, rochedo inerte, bloco metálico, escória de fundição, forma de bronze, vivendo a vida exterior das esculturas, sem consciência, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, glória! mas feito estátua.

“Coroemo-lo!” bradou de súbito Venâncio.

Neste momento, o Clímaco estrategicamente postado, puxou com força um cordão. Da capa verde dilacerada, emergiu a surpresa: o busto da oferta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, vinha de encomenda estilhaçar-se contra o metal novo.

— Coroemo-lo! repetia Venâncio. num vendaval de aclamações. E sacando da tribuna esplêndida coroa de louros, que ninguém vira, colocou-a sobre a figura.

Aristarco caiu em si. Referia-se ao basto toda a oração encomiástica de Venâncio. Nada para ele das belas apóstrofes! Teve ciúmes. O gozo da metamorfose fora uma alucinação. O aclamado, o endeusado era o busto: ele continuava a ser o pobre Aristarco, mortal, de carne e osso. O próprio Venâncio. o fiel Venâncio. abandonava-o. E por causa daquilo, daquela coisa mesquinha sobre a peanha, aquele pedaço de Aristarco, que nem ao menos era gente!

Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarco levantar-se, atravessar freneticamente o espaço atapetado, arrancar a coroa de louros ao busto.

Louvaram todos a magnanimidade da modéstia.

Mas o dia acabou insípido para o diretor. Ruminava confusamente a tristeza daquela rivalidade nova — o bronze invencível.

Por que não usam os grandes homens, em vez de poltronas, pedestais?

Que vale a estátua, se não somos nós? A adoção do pedestal nas mobílias teria ao menos a vantagem de facilitar a provação da glória, de vez em quando, da glória efetiva, glória atual, glória prática.

Tinha-se ali a um canto a coluna. Era vir a necessidade, nada mais fácil: galgava-se a elevação, ensaiava-se a postura, esperava-se imóvel que cedesse o espasmo. Mas... não! força era aceitar a verdade amarga.

O monumento prescinde do herói, não o conhece, demite-o por substituição, sopeia-o, anula-o.

Com os diabos! Por que há de ser isto afinal a imortalidade: um pedaço de mármore sobre um defunto?!

À noitinha retiravam-se os convidados, as famílias multidão confusa de alegrias e despeitos. As mães acariciando muito o filho sem prêmio, os pais odiando o diretor, olhando como vencidos para os que passavam satisfeitos, os outros pais, os colegas do filho, menos enfatuados da própria vitória que da humilhação alheia.

Humilde, a um canto, à beira da corrente dos que iam, pouco além da entrada do anfiteatro, mostraram-me uma família de luto — a família do Franco. O desembargador, de chapéu na mão, esquecendo de cobrir-se: homem baixo, fisionomia acabrunhada, longas barbas grisalhas, calvo, olhos miúdos, pálpebras em bolsa.

Tinha vindo de Mato Grosso um ano mais tarde do que pretendia. O correspondente dera a noticia.

Andava agora mostrando à família o Rio de Janeiro. Viera a festa colegial, ao colégio do filho, para distrair a filha, a raptada, que ali estava com a mãe e duas irmãs menores, muito pálida, delgada, num idiotismo sombrio, insanável de melancolia e mudez, pestanas caídas, olhar na terra, como quem pensa encontrar alguma coisa.








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